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Índice do Artigo
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12 - O encontro com Sorat
16 - A incorporação
22 - O fenômeno
39 - Caminhando nas trevas
40 - Os residentes fixos
47 - As Eras
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Capítulo 12

O encontro com Sorat

Eu precisava tomar medidas que preservassem os Enviados restantes e, para isto, deveria encontrar o responsável por essas ocorrências. Onde estavam os seis desaparecidos e como eles tinham sido localizados eram questões secundárias neste momento: eu deveria encontrar a causa e neutralizá-la sem demora. Tinha de localizar o agente de Sorat envolvido e só conseguiria isto com informações do Mundo Intermediário.

Deixei a nave no interior de uma montanha de gelo no ponto exato do chamado Polo Sul do Quarto Globo. Como a nave mantinha sua estrutura imaterial não haveria risco de ser detectada pelos instrumentos do planeta; mas Sirius e Sorat tinham tecnologia suficiente para perceber objetos e deslocamentos em algumas frequências de energia, e eu não podia correr riscos. Reuni o necessário e transportei-me para os portais do Mundo Intermediário.

O Mundo Intermediário é uma deformação causada pela ação de Sorat e Sirius na estrutura do Quarto Globo ao longo dos milênios de evolução. Originalmente era apenas um túnel que ligava o Mundo Material ao Imaterial. Quando os humanos entravam em estado de repouso — dormiam — suas consciências se deslocavam para o Mundo Imaterial através deste túnel, que era apenas um lugar de passagem. Quando o corpo físico despertava a consciência retornava, usando o mesmo caminho. O processo evolutivo de todos os espécimes humanoides do Cosmos sempre dependeu desta dualidade matéria e não-matéria; os seres se desenvolvem nos dois mundos simultaneamente. A evolução mais consistente e importante acontecia no Mundo Imaterial, onde as consciências recebiam instruções e tornavam-se cientes da Lei; a evolução material se dava na medida em que cada uma conseguia aplicar estes ensinamentos.

Os agentes de Sorat perceberam que se limitassem o tempo de permanência no Mundo Imaterial retardariam — ou mesmo inviabilizariam — o processo evolutivo do Quarto Globo. Agentes foram retirados do Mundo Material e designados para atuação definitiva no túnel, que principiou a ser muito atraente aos humanos. Desejos, emoções e pensamentos ligados ao Material começaram a ser uma constante no túnel; as consciências ficavam retidas ou abreviavam sua permanência no Mundo Imaterial. A degeneração das raças humanas foi sensível e o que era apenas uma passagem tornou-se um terceiro domínio, o Mundo Intermediário.

Apesar de ser uma anomalia, uma excrescência que só existia no Quarto Globo, era o lugar ideal para se iniciar uma investigação: todas as fofocas, maledicências, pensamentos baixos e formas etéricas contaminadas estavam lá. Criei as proteções necessárias e adentrei ao Mundo Intermediário.

Impressionei-me com as mudanças desde minha última visita a este lugar: estava maior e mais populoso. O número de consciências era muitas vezes superior ao daquela ocasião. O aspecto também era diferente: o Mundo Intermediário estava cada vez mais semelhante ao Mundo Material, apesar de o Intermediário ser composto apenas de formas criadas por pensamentos e emoções. Assumi uma aparência antropoide comum para não chamar a atenção e desloquei-me para algo que lembrava um bar-prostíbulo, onde percebi uma concentração enorme de consciências. A entrada tinha uma porta de vaivém, semelhante às mostradas em filmes antigos no Mundo Material e era, provavelmente, obra de algum saudosista daquelas películas. Entrei rapidamente e dirigi-me para o canto de um grande balcão, evitando olhar diretamente para outras consciências, que também eram antropomorfas em sua maioria. Normalmente, as consciências assumiam formas similares àquelas que tinham ou tiveram no Mundo Material, corrigindo pequenos defeitos ou condições que não lhes agradavam. Era muito raro uma consciência adotar uma forma humanoide masculina sem cabelos ou com abdômen proeminente, por exemplo. As formas femininas, nunca obesas, sempre tinham seios e quadris bem proporcionados. Os rostos eram sempre harmônicos e belos, e repetiam-se muitas vezes baseados nos ícones de beleza que cada cultura oferecia.

O ambiente era caótico e promíscuo; havia um grande palco central onde dezenas de formas humanoides masculinas e femininas nuas dançavam e simulavam sexo. Em torno dele um sem-número de consciências observava, aplaudia e acompanhava a vibração de sensualidade. Percebi emissários de Sirius entre eles: alguns simulavam masturbação física, totalmente absortos no espetáculo.

Cada canto daquele lugar tinha uma superfície elevada com um grupo de músicos tocando instrumentos e gêneros musicais diversos. Havia mesas e cadeiras espalhadas desordenadamente, onde as consciências simulavam beber algo e jogar cartas por dinheiro. Brigas espocavam a cada instante e transformavam-se em novo entretenimento; ninguém era expulso e não havia encarregados de ordem e segurança.

No centro de tudo, num plano elevado e inatingível, reinava um ser magnificamente belo pelos padrões do Quarto Globo. Sentado em uma poltrona translúcida pousada numa superfície cristalina que parecia flutuar e dominar todo o ambiente, o agente de Sorat tinha assumido uma forma masculina que lembrava os humanoides da época cultural Greco-Latina, anterior àquela que o Quarto Globo havia terminado recentemente. Suas vestimentas eram elegantes e sóbrias. Seu olhar penetrava cada movimento no grande salão; estava só. À sua direita flutuava uma fina taça com líquido borbulhante; à sua esquerda, um objeto transparente acomodava um grande charuto fumegante, que nunca se consumia. Percebi que aquela aparência era resultado de muito trabalho mental-emocional. Ele dirigiu o olhar rapidamente ao pobre-coitado que atendia sozinho no balcão, ao lado do qual eu estava sentado. O sujeito tinha uma forma geral indefinida, com partes que lembravam animais do Quarto Globo: tinha várias pernas, como uma aranha — logo, podia movimentar-se rapidamente. O tronco era de uma cobra, o que lhe dava flexibilidade para contorcer-se entre as caixas com bebidas; engastados na metade superior deste tronco, vários braços como os de um polvo — conseguia fazer coquetéis e atender os frequentadores ao mesmo tempo. Sua cabeça era a de um prosaico passarinho — lembrou-me uma pomba, que tinha uma visão de quase 360° e podia estar atenta a toda a movimentação no bar.

Ao olhar do agente, aquela pobre consciência dirigiu-se imediatamente a mim, arrulhando gentilmente:

— Nosso mestre deseja recebê-lo em uma sala especial, onde poderá ser mais bem atendido.

— Leve-me até lá — concordei, percebendo que a poltrona no alto já estava vazia.

Entrei na pequena e luxuosa sala, onde a vibração etérica das músicas e da multidão de consciências não mais penetrava. Era um ambiente silencioso e agradável; o agente de Sorat estava atrás de uma grande mesa, sentado, com a mesma taça e o mesmo charuto nas mãos. Observava-me com seu olhar penetrante e saudou-me formalmente:

— Saudações, Plêiade. Há muito não somos visitados por alguém do Complexo.

— Saudações, Sorat — respondi lacônico, reforçando minhas defesas.

— Sente-se, por favor! Que posso oferecer a tão ilustre viajante das estrelas? Temos os melhores champanhes franceses, charutos cubanos, mulheres brasileiras, homens da Itália ou, se for de sua preferência, ainda dispomos de espécimes negroides da Quarta Era, especialmente avantajados... Apenas escolha e será atendido!

A verborragia imoral de Sorat era conhecida, mas não deixava de espantar-me, sempre que a acareava. Assumi a vestimenta usualmente utilizada pelos Enviados pleiadianos — um manto branco-brilhante que cobria-nos de cima a baixo, com capuz sem aberturas, de formato elipsoide. Apenas usávamos formas de corpos físicos quando a situação exigia; naquele momento, de máscaras ao chão, era hipocrisia simular um.

Enviei um pensamento ao agente, impedindo que o espetáculo verbal continuasse; não havia tempo a perder com absurdos daquele tipo e calei-o. Ele reagiu violentamente, privado de seu valioso instrumento de trabalho — a retórica. Ergueu-se agitado, saltando como um animal ferido. Sua forma anterior desfez-se e o que surgiu foi uma espécie de monstrengo de cabeça enorme e vários membros que giravam rapidamente; tudo aquilo parecia ser composto de material vulcânico — pedras porosas fumegantes e lava incandescente. “Oh, como aquilo devia apavorar as pobres consciências que lhe caiam às mãos!” — conjeturei internamente. Mas eu não tinha tempo para aquilo também. Enviei novo comando e paralisei os movimentos do agente, retirei toda aquela encenação e coloquei-o inerte sobre a mesa. Agora sob controle e privado de sua vontade própria, o agente de Sorat mostrou-se em sua mais real aparência: um corpo quase humanoide, com pernas curtas e braços muito longos que alcançavam os joelhos e muitos pêlos dourados de vários tamanhos, da cabeça aos pés. O crânio era estreito e achatado na fronte e no alto; os maxilares largos e projetados para a frente guardavam uma grande quantidade de dentes amarelados e sujos.

Postei-me ao lado da mesa e examinei-o lentamente; seus olhos estavam abertos, fitando-me diretamente, sem piscar. Li o medo e o ódio profundos naquele olhar, e compadeci-me daquela escravidão voluntária a que algumas consciências se submetem. Fiz com que a fronte de meu capuz se abrisse e adotei um rosto humano idoso e bondoso; encarei o agente com meus novos olhos — aos quais dei uma coloração amarelo-dourada — e, antes que ele percebesse, penetrei suas memórias.