Capítulos

Índice do Artigo
Capítulos
12 - O encontro com Sorat
16 - A incorporação
22 - O fenômeno
39 - Caminhando nas trevas
40 - Os residentes fixos
47 - As Eras
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Capítulo 16

A incorporação

Havia certas dificuldades para se entrar num corpo que não estava preparado para isto. Apesar de ter o consentimento da consciência — Paul —, eu não tinha garantias de que seria recebido sem resistências. Ele ainda não tinha o desenvolvimento necessário para estar consciente nos dois lados e, portanto, a autorização dada no Mundo Imaterial pouco repercutia na matéria.

Fiz a primeira tentativa. Entrei pela parte superior do crânio e instalei-me por inteiro, quase instantaneamente. O corpo estremeceu e começou a contorcer-se violentamente na cama. Aguardei alguns instantes, na esperança de que a reação fosse temporária — mas não foi. O corpo de Paul erguia-se na cama, apoiado na nuca e nos calcanhares, arqueando-se numa parabólica acentuada; depois deixava cair os quadris violentamente. A cama de madeira rangia repetidamente, prenunciando um rompimento. Percebi a pulsação cardíaca elevando-se e saí.

Esperei que ele se acalmasse; sua boca tinha uma espuma branca que foi cessando aos poucos. A janela sem cortinas do quarto mostrava que o dia iria começar em poucos minutos; a luminosidade mudaria, os sons da manhã acordando a todos e despertadores tocando. Um corpo sem consciência não subsiste: ou ficaria em estado comatoso ou invocaria sua consciência original, trazendo Paul independentemente de seu estado no Mundo Imaterial. Eu não podia impedir isto; era o ciclo natural das consciências e minha única alternativa era ser aceito rapidamente.

Fiz nova entrada na região do plexo solar, pouco acima do umbigo. O corpo estava com seus parâmetros básicos normalizados; dormia de bruços, descoberto e sem travesseiros. Não houve movimento externo perceptível, mas a temperatura corpórea aumentou sensivelmente. O sistema gastrointestinal, então, começou a ter pequenas cólicas, que foram aumentando gradualmente; os movimentos peristálticos se acentuaram e o vômito foi inevitável. Saí novamente; meu tempo se esgotava.

Esperei que a respiração fosse reconstituída à normalidade e iniciei uma entrada pela base dos pés. Lentamente fui-me introduzindo, “negociando” com as articulações e músculos, progredindo na medida do consentimento de cada gota de sangue, argumentando amorosamente com cada célula daquele organismo. Senti que o corpo relaxava: primeiro as pernas pesaram como chumbo no macio colchão; depois os quadris e o abdômen. O coração bombeava em ritmo adequado e, enfim, todo o organismo me aceitou. Abri os olhos e pude experimentar — uma vez mais — as sensações físicas de um corpo humanoide incorporado no Quarto Globo.