Capítulos

Índice do Artigo
Capítulos
12 - O encontro com Sorat
16 - A incorporação
22 - O fenômeno
39 - Caminhando nas trevas
40 - Os residentes fixos
47 - As Eras
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Capítulo 22

O fenômeno

 O sábado iniciou nublado em Assunção, com nuvens carregadas, mas não chovia. Pouco antes do amanhecer, Juan, acompanhado da família de Pablo, tinha iniciado a viagem para o interior do Brasil. Eles seguiram em uma camionete van, com o mínimo de bagagem; o restante seria encaixotado e enviado quando estivessem acomodados. Pablo estava definitivamente afastado de qualquer tarefa no Paraguai, mas poderia ser útil em uma de nossas antigas colônias, que se localizava no centro geográfico brasileiro, na chamada Serra do Roncador. A colônia havia degenerado até a extinção, milhares de anos atrás, e agora ressurgia através de um novo grupo de emissários de Sirius. Como acontecia cada vez mais frequentemente, nosso pessoal corrompia-se muito rapidamente, entregando-se aos desejos e prazeres da matéria; a colônia estava apenas em seu início e já apresentava os sintomas. Pablo não era o mais indicado para tal tarefa, mas eu não tinha muitas opções e a prioridade era retirá-lo de Assunção antes que causasse estrago maior. Aquela noite seria crucial para nossos planos e nada poderia falhar.

Faltavam vinte minutos para as onze quando os primeiros carros começaram a chegar ao local da iniciação na Reserva Ecológica; não havia qualquer tipo de transporte público para a região naquela hora da noite. Eu já esperava uma presença limitada: o incidente com Pablo prejudicou-nos, mas, na hora marcada, contamos setenta participantes — um grupo adequado. Sara e Maria estavam misturadas às pessoas; eu contava também com a ajuda de Carlitos, um funcionário do clube que levei para executar tarefas braçais.

Conduzi todos em fila indiana até a margem da baía; o céu continuava nublado; não havia vento e a superfície da água era um grande espelho negro refletindo as luzes da capital na margem oposta. A escuridão era quebrada pelas pequenas lanternas trazidas por alguns; Carlitos levava um lampião a gás que ajudava todos na breve caminhada. Quando chegamos ao local da cerimônia orientei-o a deixar o lampião sobre um toco de árvore e formamos um círculo com as pessoas em torno dele. Eu permaneci de costas para a baía e todos olhavam para o centro do círculo, definido pela luz branca oscilante do lampião e pelo chiado do gás. Eu vestia um manto branco com o símbolo do Império de Sirius estampado em ambos os lados; até aquele momento o capuz cobria minha cabeça, que mantinha baixa. Um silêncio profundo tomou conta do ambiente; ergui lentamente meu rosto, que estava totalmente imerso na sombra do grande capuz. Direcionei energia vital para meus globos oculares; os que estavam me olhando — a maioria, naquele momento — viram dois pequenos pontos brilharem por um átimo. Um pequeno truque, muito comum em Sirius, mas que ainda causa espanto na Terra. O silêncio pareceu aprofundar-se ainda mais e retirei o capuz. As pessoas, todas em pé, remexeram-se sem sair do lugar, movimentando a musculatura. Estavam ansiosas e apreensivas. Comecei a falar:

— Meus irmãos e minhas irmãs. Todos nós somos escolhidos para liderar a Nova Terra. Hoje uma etapa se inicia. A salvação da Humanidade como raça está em jogo e todos nós iremos contribuir nesta batalha. É uma batalha do Bem contra o Mal; das forças da luz contra as da escuridão; uma batalha de superação pessoal que cada um de vocês lutará — fiz uma pausa para causar o efeito desejado e prossegui. — Não estaremos sós nesta batalha. Nossos irmãos maiores do Cosmos estarão conosco, guiando-nos, protegendo-nos e ensinando-nos. Basta que queiramos participar. Vamos invocar estes irmãos, entoando mantras. Repitam em voz alta após cada frase! — ordenei, erguendo o tom de voz e iniciando a mantralização.

— OMA SOM TARMA — e todos repetiram obedientemente. Continuei:

— ERIN ERIN ERIN — o coro tornou-se mais homogêneo. — Mais alto! — pedi.

— KITEM MARIM MII.

— KITEM NUU BASSI.

— ARMARU ARMARU MII.

— Mais suave agora — pedi.

— SIRIUS SIRIUS RE.

— SIRIUS SIRIUS RE.

— Sirius Sirius re.

— Sirius Sirius re.

— Sirius re.

— Sirius.

Paramos todos em silêncio, cada qual observando as mudanças vibratórias causadas pelos mantras. Após dois minutos recomecei repetindo a sequência várias vezes, até finalizarmos entoando como se cada mantra fosse um verso de uma canção. Percebi o desgaste físico de algumas pessoas, por estarem em pé todo aquele tempo e pela mantralização.

— Mantenham-se em pé! — ordenei — Firmes com sua fé em nossos irmãos de Sirius, que governam este sistema solar.

Ergui meus dois braços para o alto e entoei outros mantras em voz quase inaudível; aquela era a senha para que Sara, que estava com o pequeno controle da nave escondido em sua roupa, iniciasse a parte mais importante da cerimônia. Ao seu comando a nave foi ativada e iniciou uma lenta subida rompendo a lâmina d’água da baía; continuei com meus olhos fechados e entoando os mantras. O silêncio daquela noite foi então quebrado pelas pequenas ondas que se formavam atrás de mim. A nave, com suas luzes desligadas, emergiu lentamente.

Não dei atenção aos murmúrios de admiração e espanto; continuei mantralizando, mãos ao alto e olhos levemente entreabertos para observar as reações.

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Uma mulher desmaia, mas ninguém a ampara; todos estão hipnotizados pela aparição da nave. Sara, que está estrategicamente no lado oposto do círculo em relação a mim e à baía, comanda a nave a estabilizar-se na altura de vinte metros; uma breve parada e nosso transporte se movimenta para cima do grupo. Alguns fazem menção a sair do círculo, tomados de medo.

— Mantenham o círculo! — comando em voz firme e alta — Não há o que temer! — e todos permanecem.

Nossa nave é um modelo moderno de cruzador estelar, próprio para viagens longas com grupos pequenos. Seu corpo principal é cúbico, e sobre cada face sobressai-se uma redoma de material translúcido. O cubo é feito de rutiu-berga, um mineral extraído dos planetas da constelação de Órion, de coloração violácea e indeformável. A nave está parada sobre o grupo; eu não entoo mais mantras e o silêncio volta a reinar. Percebo que a mulher que desmaiara já se recobrou e está em pé novamente, sendo apoiada por um homem mais velho.

A nave desce, então, com vagar até que a redoma inferior fique a cerca de seis metros do chão; a um novo comando de Sara a redoma se ilumina — uma luminosidade amarelo-dourada homogênea. Neste momento um feixe concentrado de luz violeta surge do interior da redoma inferior e cinge a fronte de Maria, que está ao meu lado, imóvel, com as mãos sobre o coração; seu corpo todo fica — por breves segundos — envolvido por uma cintilação lilás. O feixe segue para a pessoa que está ao lado de Maria e executa o mesmo processo, até que todos — inclusive eu — recebam a luz.

A luminosidade da redoma se extingue e a nave sobe outra vez para o alto, lentamente; ao comando de Sara ela se desloca verticalmente, em alta velocidade e sem ruído algum, até desaparecer entre as nuvens que sombrearam Assunção durante todo aquele dia. A nebulosidade, então, começa a dissipar-se em círculo perfeito tendo como centro o ponto em que a nave desapareceu, formando um túnel por onde podemos ver claramente as estrelas que brilham no céu. Não há mais sinal da nave. As pessoas parecem petrificadas; sequer respiram. O momento chegou e tenho de aproveitá-lo com sabedoria; tudo que eu disser agora ficará impresso profundamente nestes humanoides.

— Eu sou Yeshua-Yupanqui, mestre de Sirius. Uma nova calamidade irá assolar este planeta em breve e a maior parte desta humanidade será consumida pelas águas e pelo fogo. Uma nova Era — a Sexta Era — deve principiar imediatamente aqui, neste país, com este grupo de iniciados. Fundaremos uma nova cidade ao norte do Paraguai, o embrião da Nova Terra, na cidade de Baía Negra. Chamar-se-á Goha-Iose, a Cidade da Luz.