Capítulos

Índice do Artigo
Capítulos
12 - O encontro com Sorat
16 - A incorporação
22 - O fenômeno
39 - Caminhando nas trevas
40 - Os residentes fixos
47 - As Eras
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Capítulo 39

Caminhando nas trevas

 

Despertei em minha cama; olhei o relógio e era madrugada ainda; não tinha sono e levantei sem titubear. Analisei os resquícios da noite de sono: lembrava de grande parte de minha conversa com Kuius. Exultei com a novidade; era quase como se tivesse acontecido numa conversa durante o jantar, com um amigo: tudo estava muito claro. Retirei minha atenção daquelas lembranças e fui ao banheiro, assear-me.

Após o banho preparei meu desjejum; a noite ainda era fechada; podia ver as estrelas claramente. Busquei as Plêiades no céu, procurando o desenho de uma panela virada para baixo; não as encontrei; a constelação já devia ter-se posto no horizonte. Fiz meu desjejum, ordenei a casa e resolvi caminhar até o resort. Se não aparecesse para trabalhar hoje poderia ter problemas.

A manhã transcorreu sem novidades ou tropeços; situações de rotina para resolver, nada complicado. No intervalo do almoço notei que minhas lembranças da noite estavam nubladas: eu já não tinha a clareza daqueles primeiros momentos após acordar; algumas coisas já esquecera.

Uma das piscinas do hotel estava com problemas e fui chamado para verificar. Não havia muitas pessoas ali; a maioria estava na praia ou fazendo compras na capital, Salvador. Resolvi o problema rapidamente e guardava minhas ferramentas quando ouvi uma voz feminina:

— Moço!

Virei o rosto e vi a dona da voz: uma linda jovem, aparentando vinte anos de idade, deitada de biquíni numa espreguiçadeira próxima da piscina. Usava óculos escuros e estava sozinha; caminhei em direção a ela.

— Sim? Posso ajudá-la?

— Você entende de televisão?

— A televisão do seu quarto está com problema?

— Está! A imagem tem muito chuvisco... — falou de um modo quase infantil, colocando a unha do dedo mínimo no canto da boca.

— Você já informou a recepção? Eles que fazem a distribuição das nossas tarefas.

— Não, não informei... Só lembrei agora quando vi você trabalhando.

— Pode deixar que eu providenciarei o conserto; hoje mesmo alguém da manutenção irá lá. Qual é o seu quarto, por favor?

— É o 1608... Mas se for para mandar outra pessoa, nem se incomode...

Fez um beicinho, tirou os óculos e levantou-se, caminhando em direção à piscina. Fiquei hipnotizado vendo o corpo perfeito, mal coberto pelo minúsculo biquíni, serpentear vagarosamente até jogar-se na água. Só saí do transe quando ela emergiu e riu graciosamente em minha direção. Excitado, guardei minhas ferramentas e fui para a tarefa seguinte — uma conveniente manutenção na câmara frigorífica que ajudaria a baixar a temperatura de certas partes de meu corpo.

A mulher não saiu de meus pensamentos o resto da tarde. Terminei minhas tarefas às cinco e meia; tomei uma ducha e vesti-me para voltar à minha casa. “Se for para mandar outra pessoa, nem se incomode...” — lembrei o convite quase explícito da bela hóspede. Havia uma norma clara no livro de conduta do resort proibindo o envolvimento entre nós, funcionários, com os hóspedes: demissão por justa causa era a penalidade. “Mas quem vai saber?” — pensei. “Tenho o motivo — a televisão — e posso entrar e sair sem ser visto. O quarto fica numa ala discreta. Por que não?”.

As várias vozes dentro de minha mente começaram a argumentar pró e contra, enquanto eu fechava meu armário. Saí do vestiário caminhando sem rumo pelos gramados; não estava na direção da saída e tampouco do quarto da mulher; apenas caminhava, procurando ordenar meus pensamentos. Tentava lembrar o que Kuius havia dito, mas agora tudo desaparecera de minha memória. O sol se punha lentamente, apagando as sombras naturais que davam lugar às artificiais, conforme as luzes se acendiam nos postes. Não sei por quanto tempo caminhei; ia de cabeça baixa, olhos fixos num ponto sempre um metro à minha frente. O caminho de pedra ardósia chegou ao fim; ergui os olhos e vi o número 1608 acima da porta; dei mais um passo e bati duas vezes com a mão direita.

Ela abriu a porta lentamente; já era noite e a iluminação estava mais forte dentro do quarto. Seu cabelo estava molhado e ela tinha uma escova na mão; penteava longa e lentamente, enquanto sorriu e disse:

— Ora, ora... Achei que não viesse mais!

— Pensei em não vir — respondi sem jeito.

— Entre.

Ela tinha acabado de sair do banho, vestia o roupão do hotel e estava com os pés descalços. Fechou a porta e caminhou na direção da pequena sala de estar que todas cabanas do resort possuíam.

— A televisão é esta aqui — apontou, sempre penteando os cabelos.

Fiquei paralisado, sem saber o que fazer; estava sem ferramentas e não tinha ido ali para consertar um televisor. Talvez eu tivesse entendido tudo errado.

— Certo... Qua-qual o problema mesmo? — gaguejei dando alguns passos na direção do aparelho.

— Por que não tenta ligá-la e vê por si mesmo? — falou, enquanto desaparecia no banheiro.

Fiz o que ela sugeriu, meio sem graça. Se ela percebesse que eu estava ali sem ferramentas — e com outras intenções — poderia denunciar-me à gerência. Peguei o controle remoto e apertei a tecla; a luzinha vermelha ficou verde e apareceu a imagem de um canal de televisão aberto, que era sempre o canal inicial programado em todos os nossos televisores. Até ali tudo bem. Fui mudando os canais de forma ascendente, passando pelos de TV a cabo e pelos vídeos internos gerados por cinco aparelhos de DVD em nossa central. O som de um secador de cabelos vinha do banheiro. Todas as imagens pareciam normais; desliguei o aparelho pelo controle e retirei o plugue da tomada; aguardei os circuitos eletrônicos se descarregarem e recoloquei-o na rede elétrica. Refiz todo o procedimento, sem encontrar defeito.

— Você é rápido nos consertos! — ela estava atrás de mim e sua voz chegou junto com o perfume suave do banho recém-tomado.

— Não encontrei... — comecei a falar, enquanto virava o rosto, para dizer que não consertara nada.

Estanquei a frase quando a vi.

Seus cabelos estavam secos e caíam ondulados abaixo dos ombros; o roupão tinha cedido lugar a um robe quase transparente, com detalhes em branco e rosa; ela não usava nada por baixo. Pude ver o contorno de seus seios perfeitos e volumosos; os bicos, centralizados perfeitamente em medalhões cor de café-com-leite, pareciam querer romper o fino tecido. Desci meus olhos para além do pequeno umbigo; não havia pelos sobre os grandes lábios e a delicada fissura estava totalmente à mostra. Fiquei imediatamente excitado e virei-me para disfarçar um ajuste na minha cueca, acomodando o crescimento vertiginoso e inesperado.

— A televisão está boa — informei tolamente, sem saber o que fazer naquela situação.

— Tenho um problema a mais para você resolver — disse ela enquanto desamarrava o cinto do robe.

Virou-se de costas e caminhou lentamente para a cama, como fizera naquela tarde, na piscina; o robe caiu ao chão no segundo passo. Admirei a cintura fina e as nádegas bem conformadas, balançando numa cadência que me hipnotizava. Saí de meu estado letárgico e joguei o controle remoto no chão. Ela já estava deitada sobre o edredom fino. A cabeça descansava sobre um travesseiro de penas de ganso, olhos fixos no teto onde girava lentamente um ventilador; os joelhos estavam para o alto, as pernas dobradas e afastadas. Senti o cheiro de seu sexo tomando conta do ambiente. Arranquei minha camisa impetuosamente e alcancei a cama em dois largos passos; meus instintos tomaram controle de minha mente, das minhas emoções e de meus atos; meus lábios encontraram os seus e minha língua pôde sentir seu gosto, que já umedecia a cama.

Ela se chamava Carla e sete dias depois voltou para sua cidade no sul do Brasil; neste período fizemos sexo todas as noites — do entardecer ao crepúsculo da manhã. Eu trabalhava durante o dia na manutenção, encerrava o expediente e corria para seu quarto. Na última noite ela convidou uma amiga que conhecera na piscina naquela tarde; fizemos sexo os três juntos. Ao final daquela jornada, esgotado, apenas observei as duas na cama; não conseguia mais me excitar e minha energia estava toda drenada.

A última manhã foi melancólica: Carla viajaria em seguida e eu retornaria à minha rotina. A amiga não sinalizou qualquer possibilidade de repetir somente comigo aquela noite de prazeres; pareceu-me que seu interesse verdadeiro era relativo à Carla e que eu tinha sido apenas um inconveniente necessário.

Fiz o desjejum na cozinha do resort, sob os olhares desconfiados de meus colegas e arrastei-me o resto do dia, evitando o trabalho. Durante aqueles dias eu me alimentara e dormira mal; estava magro, fraco e abatido.

Kuius e minhas vivências durante o sono eram uma tênue lembrança escondida num canto obscuro de minha mente. O esquecimento veio e se instalou.