Capítulos

Índice do Artigo
Capítulos
12 - O encontro com Sorat
16 - A incorporação
22 - O fenômeno
39 - Caminhando nas trevas
40 - Os residentes fixos
47 - As Eras
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Capítulo 40

 Os residentes fixos

 

 

Nossa comunidade se expandia rapidamente e vivíamos o quarto ano em Baía Negra.

A infraestrutura estava consolidada — para o momento que vivíamos e para um razoável aumento de pessoas. O centro físico e espiritual de Goha-Iose era o grande auditório — com a frente para o norte — no qual eram feitas as palestras de orientação e condução para o grupo de pessoas. Era como um templo, mas evitávamos esta denominação para não haver qualquer comparação de nosso trabalho com as religiões e seitas estabelecidas na Terra; chamávamos de Casa da Luz. Os alojamentos — quatro até o momento — eram nominados de forma que reforçassem qualidades adequadas à Nova Terra: Harmonia, Fraternidade, Criatividade e Paz. Estes alojamentos — que foram construídos em posição radial, com suas fachadas voltadas para a Casa da Luz — tinham capacidade para acolher 430 pessoas no total, em quartos e banheiros coletivos em sua maioria. Havia a possibilidade de hospedagem individual, que era utilizada em casos especiais. Para isto foram construídas pequenas cabanas entre os alojamentos as quais chamávamos “Cubos”, pelo seu formato arquitetônico; tínhamos quinze Cubos edificados. Os coordenadores de cada alojamento, por exemplo, moravam em Cubos. Eu tinha minha própria casa, construída entre as árvores, na beira de um córrego, a leste da Casa da Luz, distante o suficiente para ter alguma privacidade. Era uma construção simples e convencional, com cozinha, banheiro, quarto e uma sala mais ampla que era utilizada como escritório e biblioteca. Também fazia pequenas reuniões ali, para até sete pessoas. Quando havia um número maior de participantes utilizávamos o próprio auditório. Atrás da Casa da Luz, mas não contíguo, estava o complexo administrativo e funcional composto de uma cozinha industrial, refeitório, lavanderia, panificadora e escritórios. Era a única edificação que não tinha um nome específico e era chamada genericamente de “Administração”.

Já havia uma clara divisão no grupo de pessoas que frequentava Goha-Iose. Tínhamos, em média, cem pessoas por dia hospedadas nos vários alojamentos; desta centena apenas 33 pessoas eram o que chamávamos de grupo de Residentes Fixos; os demais eram voluntários que permaneciam períodos e retornavam para suas cidades e sua rotina. Constituíam uma população flutuante, que aumentava em feriados prolongados e atividades da comunidade, e diminuía em outros períodos. Chegavam e saíam com a mesma facilidade, sem responsabilidades maiores; não podíamos contar com estas pessoas. Acontecia muito de um voluntário chegar para uma temporada de dois meses, irritar-se com alguma tarefa dada pelo coordenador ou com um colega de quarto que roncava demais e ir embora já na segunda semana. Tínhamos de administrar esta volatilidade de mão de obra, e para isto contávamos com os residentes.

O grupo de Residentes Fixos era o que realmente administrava Goha-Iose; todas as responsabilidades e tarefas essenciais eram destinadas a estas pessoas que eram convidadas formalmente a fazer parte do mesmo. Quando percebíamos que alguém estava se dedicando quase que totalmente à comunidade, entregando-se às tarefas solicitadas com toda sua energia, convidávamo-lo a morar em Goha-Iose. A pessoa deveria cortar todos os vínculos com o mundo externo e entregar-se incondicionalmente. Seu corpo, sua mente e seu emocional deveriam estar voltados unicamente ao propósito da comunidade. Antes de chegar a este ponto, as pessoas passavam por etapas onde ficavam duas semanas em Goha-Iose e duas semanas na sua cidade; o passo seguinte era uma rotina de três por um, ou seja, apenas uma semana em sua cidade. Aos poucos a pessoa evoluía para permanecer dois ou três meses na comunidade e voltava para passar apenas três ou quatro dias em seu local de origem. Este era o ponto em que estava Clarissa, uma brasileira de 78 anos de idade, que mostrava total devoção ao nosso objetivo. Ela estava em minha casa para uma reunião, na qual seria convidada para integrar o grupo de Residentes Fixos de Goha-Iose. Eu e Sara faríamos o convite.

— Você está nervosa, Clarissa? — falou Sara, amorosamente, segurando a mão frágil e enrugada da idosa entre as suas.

— Um pouco... — sorriu, ansiosa. — Nunca imaginei ser convocada para uma reunião com o senhor — completou voltando-se para mim.

Sorri amistosamente para que ela relaxasse e disse:

— Fique tranquila e, por favor, não me chame de senhor. Eu lhe chamo pelo seu nome, Clarissa, e você me chama pelo meu, Yeshua. Está bem assim?

— Sim, está bem... — voltou a sorrir docemente.

Clarissa morava sozinha em Campinas, no interior do estado de São Paulo; viuvara há cerca de um ano. Seu marido fora empresário no ramo de máquinas e equipamentos, e a tinha deixado numa situação confortável. Seus filhos — um casal — já tinham constituído famílias na capital, São Paulo. Os filhos e o marido nunca estiveram em Goha-Iose e, até onde sabíamos, não concordavam com o caminho escolhido pela mãe. Sara serviu chá para todos e entrei na pauta sem mais delongas.

— Queremos que venha morar conosco, Clarissa.

— Oh, meu Deus... — exclamou e as lágrimas brotaram fartas de seus olhos claros.

Ficamos em silêncio por alguns momentos; eu e Sara sorrindo, emocionados com a reação espontânea daquela irmã terrestre. Ao término de alguns minutos ela se acalmou, pediu licença para ir ao banheiro, voltou e pudemos continuar nossa reunião.

— Você compreende bem o que isto significa, Clarissa? — perguntou Sara.

— Acho que sim — respondeu ela. — Desligar-me de tudo e vir morar em definitivo, não?

— Sim, cremos que você está pronta — afirmei. — Como está o relacionamento com seus filhos?

— Quase não os vejo mais; eles não gostam muito das minhas vindas aqui e pedem sempre que eu vá morar em São Paulo, mais próxima a eles.

— E qual é sua resposta a este pedido?

— Digo-lhes que minha vida é Goha-Iose e que vou morrer aqui — respondeu com os olhos inundados novamente. — Eu não esperava este convite... Acho que não estou pronta.

— Não tenho dúvidas que está, Clarissa — reiterei. — Gostaria de perguntar algo?

— Minhas tarefas vão mudar?

— Você tem auxiliado sempre na coordenação da Casa da Criatividade; pensamos que o acolhimento dos visitantes na Recepção seria uma tarefa adequada — respondeu Sara.

— Desculpem-me; estou um pouco emocionada. Tudo é muito inesperado e maravilhoso para mim.

— Você precisa de um tempo para decidir?

— Não, não preciso. Eu aceito com todo meu coração.

Sara a abraçou, enquanto a anciã materializava suas emoções em lágrimas.

— Posso perguntar mais uma coisa? — disse, enquanto sentava novamente.

— Claro, tudo que for necessário.

— Tenho três apartamentos em Campinas; aquele que moro e outros dois alugados. Devo mantê-los?

— Não — respondi suave, mas firmemente —, não deve. Todos os vínculos materiais com o mundo externo devem ser cortados. Se você mantiver fundos e patrimônio será sempre solicitada a administrá-los. Sua energia deve estar toda voltada para a Nova Terra, a construção de Goha-Iose.

— Que devo fazer, então?

— Desfazer-se de tudo; a comunidade suprirá o necessário.

— Devo vender tudo?

— Você pode doar seu patrimônio... — sugeriu Sara.

Clarissa baixou a cabeça, pensativa. Os apegos materiais são os mais difíceis de serem quebrados. Finalmente falou:

— Eu gostaria de doar tudo que tenho para Goha-Iose, mas meus filhos não vão concordar com isto... José Mário, meu filho, dia desses insinuou que poderia pedir na Justiça a tutela de meus bens. Sou uma velha... Eles acham que estou ficando caduca — e recomeçou a chorar.

Sara e eu nos olhamos; aquilo estava se estendendo demais.

— Clarissa: vá e deixe que a noite seja sua conselheira sobre este assunto. Sara, providencie um Cubo para Clarissa ficar em paz e poder decidir com clareza. Estarei aqui para ajudá-la a qualquer momento, está bem?

Ambas balançaram a cabeça assentindo; a reunião estava terminada. Voltei para o livro que estava escrevendo em minha mesa de trabalho, que ficava ao lado da grande janela com vista para o riacho que corria preguiçosamente e cantava uma melodia suave, resultado da combinação de sons da água roçando as pedras. Olhei a mata e percebi que tínhamos mais pássaros que nos anos anteriores. O teclado do computador implorava por atenção e voltei à redação de meu sétimo livro.

Clarissa voltou na manhã seguinte. Decidira partilhar em vida a herança que caberia aos filhos pela lei brasileira; o restante seria doado à comunidade. Coube a nós um apartamento, um automóvel que pertencera ao marido e o equivalente a 94 mil dólares em dinheiro.