Índice do Artigo
Capítulos
12 - O encontro com Sorat
16 - A incorporação
22 - O fenômeno
39 - Caminhando nas trevas
40 - Os residentes fixos
47 - As Eras
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 CAPÍTULOS DE ERAS-DESPERTAR

Os capítulos disponibilizados acima são uma amostra da obra ERAS, livro 1 - Despertar, de Stephen Play.

Boa leitura!



 

Capítulo 12

O encontro com Sorat

Eu precisava tomar medidas que preservassem os Enviados restantes e, para isto, deveria encontrar o responsável por essas ocorrências. Onde estavam os seis desaparecidos e como eles tinham sido localizados eram questões secundárias neste momento: eu deveria encontrar a causa e neutralizá-la sem demora. Tinha de localizar o agente de Sorat envolvido e só conseguiria isto com informações do Mundo Intermediário.

Deixei a nave no interior de uma montanha de gelo no ponto exato do chamado Polo Sul do Quarto Globo. Como a nave mantinha sua estrutura imaterial não haveria risco de ser detectada pelos instrumentos do planeta; mas Sirius e Sorat tinham tecnologia suficiente para perceber objetos e deslocamentos em algumas frequências de energia, e eu não podia correr riscos. Reuni o necessário e transportei-me para os portais do Mundo Intermediário.

O Mundo Intermediário é uma deformação causada pela ação de Sorat e Sirius na estrutura do Quarto Globo ao longo dos milênios de evolução. Originalmente era apenas um túnel que ligava o Mundo Material ao Imaterial. Quando os humanos entravam em estado de repouso — dormiam — suas consciências se deslocavam para o Mundo Imaterial através deste túnel, que era apenas um lugar de passagem. Quando o corpo físico despertava a consciência retornava, usando o mesmo caminho. O processo evolutivo de todos os espécimes humanoides do Cosmos sempre dependeu desta dualidade matéria e não-matéria; os seres se desenvolvem nos dois mundos simultaneamente. A evolução mais consistente e importante acontecia no Mundo Imaterial, onde as consciências recebiam instruções e tornavam-se cientes da Lei; a evolução material se dava na medida em que cada uma conseguia aplicar estes ensinamentos.

Os agentes de Sorat perceberam que se limitassem o tempo de permanência no Mundo Imaterial retardariam — ou mesmo inviabilizariam — o processo evolutivo do Quarto Globo. Agentes foram retirados do Mundo Material e designados para atuação definitiva no túnel, que principiou a ser muito atraente aos humanos. Desejos, emoções e pensamentos ligados ao Material começaram a ser uma constante no túnel; as consciências ficavam retidas ou abreviavam sua permanência no Mundo Imaterial. A degeneração das raças humanas foi sensível e o que era apenas uma passagem tornou-se um terceiro domínio, o Mundo Intermediário.

Apesar de ser uma anomalia, uma excrescência que só existia no Quarto Globo, era o lugar ideal para se iniciar uma investigação: todas as fofocas, maledicências, pensamentos baixos e formas etéricas contaminadas estavam lá. Criei as proteções necessárias e adentrei ao Mundo Intermediário.

Impressionei-me com as mudanças desde minha última visita a este lugar: estava maior e mais populoso. O número de consciências era muitas vezes superior ao daquela ocasião. O aspecto também era diferente: o Mundo Intermediário estava cada vez mais semelhante ao Mundo Material, apesar de o Intermediário ser composto apenas de formas criadas por pensamentos e emoções. Assumi uma aparência antropoide comum para não chamar a atenção e desloquei-me para algo que lembrava um bar-prostíbulo, onde percebi uma concentração enorme de consciências. A entrada tinha uma porta de vaivém, semelhante às mostradas em filmes antigos no Mundo Material e era, provavelmente, obra de algum saudosista daquelas películas. Entrei rapidamente e dirigi-me para o canto de um grande balcão, evitando olhar diretamente para outras consciências, que também eram antropomorfas em sua maioria. Normalmente, as consciências assumiam formas similares àquelas que tinham ou tiveram no Mundo Material, corrigindo pequenos defeitos ou condições que não lhes agradavam. Era muito raro uma consciência adotar uma forma humanoide masculina sem cabelos ou com abdômen proeminente, por exemplo. As formas femininas, nunca obesas, sempre tinham seios e quadris bem proporcionados. Os rostos eram sempre harmônicos e belos, e repetiam-se muitas vezes baseados nos ícones de beleza que cada cultura oferecia.

O ambiente era caótico e promíscuo; havia um grande palco central onde dezenas de formas humanoides masculinas e femininas nuas dançavam e simulavam sexo. Em torno dele um sem-número de consciências observava, aplaudia e acompanhava a vibração de sensualidade. Percebi emissários de Sirius entre eles: alguns simulavam masturbação física, totalmente absortos no espetáculo.

Cada canto daquele lugar tinha uma superfície elevada com um grupo de músicos tocando instrumentos e gêneros musicais diversos. Havia mesas e cadeiras espalhadas desordenadamente, onde as consciências simulavam beber algo e jogar cartas por dinheiro. Brigas espocavam a cada instante e transformavam-se em novo entretenimento; ninguém era expulso e não havia encarregados de ordem e segurança.

No centro de tudo, num plano elevado e inatingível, reinava um ser magnificamente belo pelos padrões do Quarto Globo. Sentado em uma poltrona translúcida pousada numa superfície cristalina que parecia flutuar e dominar todo o ambiente, o agente de Sorat tinha assumido uma forma masculina que lembrava os humanoides da época cultural Greco-Latina, anterior àquela que o Quarto Globo havia terminado recentemente. Suas vestimentas eram elegantes e sóbrias. Seu olhar penetrava cada movimento no grande salão; estava só. À sua direita flutuava uma fina taça com líquido borbulhante; à sua esquerda, um objeto transparente acomodava um grande charuto fumegante, que nunca se consumia. Percebi que aquela aparência era resultado de muito trabalho mental-emocional. Ele dirigiu o olhar rapidamente ao pobre-coitado que atendia sozinho no balcão, ao lado do qual eu estava sentado. O sujeito tinha uma forma geral indefinida, com partes que lembravam animais do Quarto Globo: tinha várias pernas, como uma aranha — logo, podia movimentar-se rapidamente. O tronco era de uma cobra, o que lhe dava flexibilidade para contorcer-se entre as caixas com bebidas; engastados na metade superior deste tronco, vários braços como os de um polvo — conseguia fazer coquetéis e atender os frequentadores ao mesmo tempo. Sua cabeça era a de um prosaico passarinho — lembrou-me uma pomba, que tinha uma visão de quase 360° e podia estar atenta a toda a movimentação no bar.

Ao olhar do agente, aquela pobre consciência dirigiu-se imediatamente a mim, arrulhando gentilmente:

— Nosso mestre deseja recebê-lo em uma sala especial, onde poderá ser mais bem atendido.

— Leve-me até lá — concordei, percebendo que a poltrona no alto já estava vazia.

Entrei na pequena e luxuosa sala, onde a vibração etérica das músicas e da multidão de consciências não mais penetrava. Era um ambiente silencioso e agradável; o agente de Sorat estava atrás de uma grande mesa, sentado, com a mesma taça e o mesmo charuto nas mãos. Observava-me com seu olhar penetrante e saudou-me formalmente:

— Saudações, Plêiade. Há muito não somos visitados por alguém do Complexo.

— Saudações, Sorat — respondi lacônico, reforçando minhas defesas.

— Sente-se, por favor! Que posso oferecer a tão ilustre viajante das estrelas? Temos os melhores champanhes franceses, charutos cubanos, mulheres brasileiras, homens da Itália ou, se for de sua preferência, ainda dispomos de espécimes negroides da Quarta Era, especialmente avantajados... Apenas escolha e será atendido!

A verborragia imoral de Sorat era conhecida, mas não deixava de espantar-me, sempre que a acareava. Assumi a vestimenta usualmente utilizada pelos Enviados pleiadianos — um manto branco-brilhante que cobria-nos de cima a baixo, com capuz sem aberturas, de formato elipsoide. Apenas usávamos formas de corpos físicos quando a situação exigia; naquele momento, de máscaras ao chão, era hipocrisia simular um.

Enviei um pensamento ao agente, impedindo que o espetáculo verbal continuasse; não havia tempo a perder com absurdos daquele tipo e calei-o. Ele reagiu violentamente, privado de seu valioso instrumento de trabalho — a retórica. Ergueu-se agitado, saltando como um animal ferido. Sua forma anterior desfez-se e o que surgiu foi uma espécie de monstrengo de cabeça enorme e vários membros que giravam rapidamente; tudo aquilo parecia ser composto de material vulcânico — pedras porosas fumegantes e lava incandescente. “Oh, como aquilo devia apavorar as pobres consciências que lhe caiam às mãos!” — conjeturei internamente. Mas eu não tinha tempo para aquilo também. Enviei novo comando e paralisei os movimentos do agente, retirei toda aquela encenação e coloquei-o inerte sobre a mesa. Agora sob controle e privado de sua vontade própria, o agente de Sorat mostrou-se em sua mais real aparência: um corpo quase humanoide, com pernas curtas e braços muito longos que alcançavam os joelhos e muitos pêlos dourados de vários tamanhos, da cabeça aos pés. O crânio era estreito e achatado na fronte e no alto; os maxilares largos e projetados para a frente guardavam uma grande quantidade de dentes amarelados e sujos.

Postei-me ao lado da mesa e examinei-o lentamente; seus olhos estavam abertos, fitando-me diretamente, sem piscar. Li o medo e o ódio profundos naquele olhar, e compadeci-me daquela escravidão voluntária a que algumas consciências se submetem. Fiz com que a fronte de meu capuz se abrisse e adotei um rosto humano idoso e bondoso; encarei o agente com meus novos olhos — aos quais dei uma coloração amarelo-dourada — e, antes que ele percebesse, penetrei suas memórias.

 





Capítulo 16

A incorporação

Havia certas dificuldades para se entrar num corpo que não estava preparado para isto. Apesar de ter o consentimento da consciência — Paul —, eu não tinha garantias de que seria recebido sem resistências. Ele ainda não tinha o desenvolvimento necessário para estar consciente nos dois lados e, portanto, a autorização dada no Mundo Imaterial pouco repercutia na matéria.

Fiz a primeira tentativa. Entrei pela parte superior do crânio e instalei-me por inteiro, quase instantaneamente. O corpo estremeceu e começou a contorcer-se violentamente na cama. Aguardei alguns instantes, na esperança de que a reação fosse temporária — mas não foi. O corpo de Paul erguia-se na cama, apoiado na nuca e nos calcanhares, arqueando-se numa parabólica acentuada; depois deixava cair os quadris violentamente. A cama de madeira rangia repetidamente, prenunciando um rompimento. Percebi a pulsação cardíaca elevando-se e saí.

Esperei que ele se acalmasse; sua boca tinha uma espuma branca que foi cessando aos poucos. A janela sem cortinas do quarto mostrava que o dia iria começar em poucos minutos; a luminosidade mudaria, os sons da manhã acordando a todos e despertadores tocando. Um corpo sem consciência não subsiste: ou ficaria em estado comatoso ou invocaria sua consciência original, trazendo Paul independentemente de seu estado no Mundo Imaterial. Eu não podia impedir isto; era o ciclo natural das consciências e minha única alternativa era ser aceito rapidamente.

Fiz nova entrada na região do plexo solar, pouco acima do umbigo. O corpo estava com seus parâmetros básicos normalizados; dormia de bruços, descoberto e sem travesseiros. Não houve movimento externo perceptível, mas a temperatura corpórea aumentou sensivelmente. O sistema gastrointestinal, então, começou a ter pequenas cólicas, que foram aumentando gradualmente; os movimentos peristálticos se acentuaram e o vômito foi inevitável. Saí novamente; meu tempo se esgotava.

Esperei que a respiração fosse reconstituída à normalidade e iniciei uma entrada pela base dos pés. Lentamente fui-me introduzindo, “negociando” com as articulações e músculos, progredindo na medida do consentimento de cada gota de sangue, argumentando amorosamente com cada célula daquele organismo. Senti que o corpo relaxava: primeiro as pernas pesaram como chumbo no macio colchão; depois os quadris e o abdômen. O coração bombeava em ritmo adequado e, enfim, todo o organismo me aceitou. Abri os olhos e pude experimentar — uma vez mais — as sensações físicas de um corpo humanoide incorporado no Quarto Globo.



 

Capítulo 22

O fenômeno

 O sábado iniciou nublado em Assunção, com nuvens carregadas, mas não chovia. Pouco antes do amanhecer, Juan, acompanhado da família de Pablo, tinha iniciado a viagem para o interior do Brasil. Eles seguiram em uma camionete van, com o mínimo de bagagem; o restante seria encaixotado e enviado quando estivessem acomodados. Pablo estava definitivamente afastado de qualquer tarefa no Paraguai, mas poderia ser útil em uma de nossas antigas colônias, que se localizava no centro geográfico brasileiro, na chamada Serra do Roncador. A colônia havia degenerado até a extinção, milhares de anos atrás, e agora ressurgia através de um novo grupo de emissários de Sirius. Como acontecia cada vez mais frequentemente, nosso pessoal corrompia-se muito rapidamente, entregando-se aos desejos e prazeres da matéria; a colônia estava apenas em seu início e já apresentava os sintomas. Pablo não era o mais indicado para tal tarefa, mas eu não tinha muitas opções e a prioridade era retirá-lo de Assunção antes que causasse estrago maior. Aquela noite seria crucial para nossos planos e nada poderia falhar.

Faltavam vinte minutos para as onze quando os primeiros carros começaram a chegar ao local da iniciação na Reserva Ecológica; não havia qualquer tipo de transporte público para a região naquela hora da noite. Eu já esperava uma presença limitada: o incidente com Pablo prejudicou-nos, mas, na hora marcada, contamos setenta participantes — um grupo adequado. Sara e Maria estavam misturadas às pessoas; eu contava também com a ajuda de Carlitos, um funcionário do clube que levei para executar tarefas braçais.

Conduzi todos em fila indiana até a margem da baía; o céu continuava nublado; não havia vento e a superfície da água era um grande espelho negro refletindo as luzes da capital na margem oposta. A escuridão era quebrada pelas pequenas lanternas trazidas por alguns; Carlitos levava um lampião a gás que ajudava todos na breve caminhada. Quando chegamos ao local da cerimônia orientei-o a deixar o lampião sobre um toco de árvore e formamos um círculo com as pessoas em torno dele. Eu permaneci de costas para a baía e todos olhavam para o centro do círculo, definido pela luz branca oscilante do lampião e pelo chiado do gás. Eu vestia um manto branco com o símbolo do Império de Sirius estampado em ambos os lados; até aquele momento o capuz cobria minha cabeça, que mantinha baixa. Um silêncio profundo tomou conta do ambiente; ergui lentamente meu rosto, que estava totalmente imerso na sombra do grande capuz. Direcionei energia vital para meus globos oculares; os que estavam me olhando — a maioria, naquele momento — viram dois pequenos pontos brilharem por um átimo. Um pequeno truque, muito comum em Sirius, mas que ainda causa espanto na Terra. O silêncio pareceu aprofundar-se ainda mais e retirei o capuz. As pessoas, todas em pé, remexeram-se sem sair do lugar, movimentando a musculatura. Estavam ansiosas e apreensivas. Comecei a falar:

— Meus irmãos e minhas irmãs. Todos nós somos escolhidos para liderar a Nova Terra. Hoje uma etapa se inicia. A salvação da Humanidade como raça está em jogo e todos nós iremos contribuir nesta batalha. É uma batalha do Bem contra o Mal; das forças da luz contra as da escuridão; uma batalha de superação pessoal que cada um de vocês lutará — fiz uma pausa para causar o efeito desejado e prossegui. — Não estaremos sós nesta batalha. Nossos irmãos maiores do Cosmos estarão conosco, guiando-nos, protegendo-nos e ensinando-nos. Basta que queiramos participar. Vamos invocar estes irmãos, entoando mantras. Repitam em voz alta após cada frase! — ordenei, erguendo o tom de voz e iniciando a mantralização.

— OMA SOM TARMA — e todos repetiram obedientemente. Continuei:

— ERIN ERIN ERIN — o coro tornou-se mais homogêneo. — Mais alto! — pedi.

— KITEM MARIM MII.

— KITEM NUU BASSI.

— ARMARU ARMARU MII.

— Mais suave agora — pedi.

— SIRIUS SIRIUS RE.

— SIRIUS SIRIUS RE.

— Sirius Sirius re.

— Sirius Sirius re.

— Sirius re.

— Sirius.

Paramos todos em silêncio, cada qual observando as mudanças vibratórias causadas pelos mantras. Após dois minutos recomecei repetindo a sequência várias vezes, até finalizarmos entoando como se cada mantra fosse um verso de uma canção. Percebi o desgaste físico de algumas pessoas, por estarem em pé todo aquele tempo e pela mantralização.

— Mantenham-se em pé! — ordenei — Firmes com sua fé em nossos irmãos de Sirius, que governam este sistema solar.

Ergui meus dois braços para o alto e entoei outros mantras em voz quase inaudível; aquela era a senha para que Sara, que estava com o pequeno controle da nave escondido em sua roupa, iniciasse a parte mais importante da cerimônia. Ao seu comando a nave foi ativada e iniciou uma lenta subida rompendo a lâmina d’água da baía; continuei com meus olhos fechados e entoando os mantras. O silêncio daquela noite foi então quebrado pelas pequenas ondas que se formavam atrás de mim. A nave, com suas luzes desligadas, emergiu lentamente.

Não dei atenção aos murmúrios de admiração e espanto; continuei mantralizando, mãos ao alto e olhos levemente entreabertos para observar as reações.

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Uma mulher desmaia, mas ninguém a ampara; todos estão hipnotizados pela aparição da nave. Sara, que está estrategicamente no lado oposto do círculo em relação a mim e à baía, comanda a nave a estabilizar-se na altura de vinte metros; uma breve parada e nosso transporte se movimenta para cima do grupo. Alguns fazem menção a sair do círculo, tomados de medo.

— Mantenham o círculo! — comando em voz firme e alta — Não há o que temer! — e todos permanecem.

Nossa nave é um modelo moderno de cruzador estelar, próprio para viagens longas com grupos pequenos. Seu corpo principal é cúbico, e sobre cada face sobressai-se uma redoma de material translúcido. O cubo é feito de rutiu-berga, um mineral extraído dos planetas da constelação de Órion, de coloração violácea e indeformável. A nave está parada sobre o grupo; eu não entoo mais mantras e o silêncio volta a reinar. Percebo que a mulher que desmaiara já se recobrou e está em pé novamente, sendo apoiada por um homem mais velho.

A nave desce, então, com vagar até que a redoma inferior fique a cerca de seis metros do chão; a um novo comando de Sara a redoma se ilumina — uma luminosidade amarelo-dourada homogênea. Neste momento um feixe concentrado de luz violeta surge do interior da redoma inferior e cinge a fronte de Maria, que está ao meu lado, imóvel, com as mãos sobre o coração; seu corpo todo fica — por breves segundos — envolvido por uma cintilação lilás. O feixe segue para a pessoa que está ao lado de Maria e executa o mesmo processo, até que todos — inclusive eu — recebam a luz.

A luminosidade da redoma se extingue e a nave sobe outra vez para o alto, lentamente; ao comando de Sara ela se desloca verticalmente, em alta velocidade e sem ruído algum, até desaparecer entre as nuvens que sombrearam Assunção durante todo aquele dia. A nebulosidade, então, começa a dissipar-se em círculo perfeito tendo como centro o ponto em que a nave desapareceu, formando um túnel por onde podemos ver claramente as estrelas que brilham no céu. Não há mais sinal da nave. As pessoas parecem petrificadas; sequer respiram. O momento chegou e tenho de aproveitá-lo com sabedoria; tudo que eu disser agora ficará impresso profundamente nestes humanoides.

— Eu sou Yeshua-Yupanqui, mestre de Sirius. Uma nova calamidade irá assolar este planeta em breve e a maior parte desta humanidade será consumida pelas águas e pelo fogo. Uma nova Era — a Sexta Era — deve principiar imediatamente aqui, neste país, com este grupo de iniciados. Fundaremos uma nova cidade ao norte do Paraguai, o embrião da Nova Terra, na cidade de Baía Negra. Chamar-se-á Goha-Iose, a Cidade da Luz.






Capítulo 39

Caminhando nas trevas

 

Despertei em minha cama; olhei o relógio e era madrugada ainda; não tinha sono e levantei sem titubear. Analisei os resquícios da noite de sono: lembrava de grande parte de minha conversa com Kuius. Exultei com a novidade; era quase como se tivesse acontecido numa conversa durante o jantar, com um amigo: tudo estava muito claro. Retirei minha atenção daquelas lembranças e fui ao banheiro, assear-me.

Após o banho preparei meu desjejum; a noite ainda era fechada; podia ver as estrelas claramente. Busquei as Plêiades no céu, procurando o desenho de uma panela virada para baixo; não as encontrei; a constelação já devia ter-se posto no horizonte. Fiz meu desjejum, ordenei a casa e resolvi caminhar até o resort. Se não aparecesse para trabalhar hoje poderia ter problemas.

A manhã transcorreu sem novidades ou tropeços; situações de rotina para resolver, nada complicado. No intervalo do almoço notei que minhas lembranças da noite estavam nubladas: eu já não tinha a clareza daqueles primeiros momentos após acordar; algumas coisas já esquecera.

Uma das piscinas do hotel estava com problemas e fui chamado para verificar. Não havia muitas pessoas ali; a maioria estava na praia ou fazendo compras na capital, Salvador. Resolvi o problema rapidamente e guardava minhas ferramentas quando ouvi uma voz feminina:

— Moço!

Virei o rosto e vi a dona da voz: uma linda jovem, aparentando vinte anos de idade, deitada de biquíni numa espreguiçadeira próxima da piscina. Usava óculos escuros e estava sozinha; caminhei em direção a ela.

— Sim? Posso ajudá-la?

— Você entende de televisão?

— A televisão do seu quarto está com problema?

— Está! A imagem tem muito chuvisco... — falou de um modo quase infantil, colocando a unha do dedo mínimo no canto da boca.

— Você já informou a recepção? Eles que fazem a distribuição das nossas tarefas.

— Não, não informei... Só lembrei agora quando vi você trabalhando.

— Pode deixar que eu providenciarei o conserto; hoje mesmo alguém da manutenção irá lá. Qual é o seu quarto, por favor?

— É o 1608... Mas se for para mandar outra pessoa, nem se incomode...

Fez um beicinho, tirou os óculos e levantou-se, caminhando em direção à piscina. Fiquei hipnotizado vendo o corpo perfeito, mal coberto pelo minúsculo biquíni, serpentear vagarosamente até jogar-se na água. Só saí do transe quando ela emergiu e riu graciosamente em minha direção. Excitado, guardei minhas ferramentas e fui para a tarefa seguinte — uma conveniente manutenção na câmara frigorífica que ajudaria a baixar a temperatura de certas partes de meu corpo.

A mulher não saiu de meus pensamentos o resto da tarde. Terminei minhas tarefas às cinco e meia; tomei uma ducha e vesti-me para voltar à minha casa. “Se for para mandar outra pessoa, nem se incomode...” — lembrei o convite quase explícito da bela hóspede. Havia uma norma clara no livro de conduta do resort proibindo o envolvimento entre nós, funcionários, com os hóspedes: demissão por justa causa era a penalidade. “Mas quem vai saber?” — pensei. “Tenho o motivo — a televisão — e posso entrar e sair sem ser visto. O quarto fica numa ala discreta. Por que não?”.

As várias vozes dentro de minha mente começaram a argumentar pró e contra, enquanto eu fechava meu armário. Saí do vestiário caminhando sem rumo pelos gramados; não estava na direção da saída e tampouco do quarto da mulher; apenas caminhava, procurando ordenar meus pensamentos. Tentava lembrar o que Kuius havia dito, mas agora tudo desaparecera de minha memória. O sol se punha lentamente, apagando as sombras naturais que davam lugar às artificiais, conforme as luzes se acendiam nos postes. Não sei por quanto tempo caminhei; ia de cabeça baixa, olhos fixos num ponto sempre um metro à minha frente. O caminho de pedra ardósia chegou ao fim; ergui os olhos e vi o número 1608 acima da porta; dei mais um passo e bati duas vezes com a mão direita.

Ela abriu a porta lentamente; já era noite e a iluminação estava mais forte dentro do quarto. Seu cabelo estava molhado e ela tinha uma escova na mão; penteava longa e lentamente, enquanto sorriu e disse:

— Ora, ora... Achei que não viesse mais!

— Pensei em não vir — respondi sem jeito.

— Entre.

Ela tinha acabado de sair do banho, vestia o roupão do hotel e estava com os pés descalços. Fechou a porta e caminhou na direção da pequena sala de estar que todas cabanas do resort possuíam.

— A televisão é esta aqui — apontou, sempre penteando os cabelos.

Fiquei paralisado, sem saber o que fazer; estava sem ferramentas e não tinha ido ali para consertar um televisor. Talvez eu tivesse entendido tudo errado.

— Certo... Qua-qual o problema mesmo? — gaguejei dando alguns passos na direção do aparelho.

— Por que não tenta ligá-la e vê por si mesmo? — falou, enquanto desaparecia no banheiro.

Fiz o que ela sugeriu, meio sem graça. Se ela percebesse que eu estava ali sem ferramentas — e com outras intenções — poderia denunciar-me à gerência. Peguei o controle remoto e apertei a tecla; a luzinha vermelha ficou verde e apareceu a imagem de um canal de televisão aberto, que era sempre o canal inicial programado em todos os nossos televisores. Até ali tudo bem. Fui mudando os canais de forma ascendente, passando pelos de TV a cabo e pelos vídeos internos gerados por cinco aparelhos de DVD em nossa central. O som de um secador de cabelos vinha do banheiro. Todas as imagens pareciam normais; desliguei o aparelho pelo controle e retirei o plugue da tomada; aguardei os circuitos eletrônicos se descarregarem e recoloquei-o na rede elétrica. Refiz todo o procedimento, sem encontrar defeito.

— Você é rápido nos consertos! — ela estava atrás de mim e sua voz chegou junto com o perfume suave do banho recém-tomado.

— Não encontrei... — comecei a falar, enquanto virava o rosto, para dizer que não consertara nada.

Estanquei a frase quando a vi.

Seus cabelos estavam secos e caíam ondulados abaixo dos ombros; o roupão tinha cedido lugar a um robe quase transparente, com detalhes em branco e rosa; ela não usava nada por baixo. Pude ver o contorno de seus seios perfeitos e volumosos; os bicos, centralizados perfeitamente em medalhões cor de café-com-leite, pareciam querer romper o fino tecido. Desci meus olhos para além do pequeno umbigo; não havia pelos sobre os grandes lábios e a delicada fissura estava totalmente à mostra. Fiquei imediatamente excitado e virei-me para disfarçar um ajuste na minha cueca, acomodando o crescimento vertiginoso e inesperado.

— A televisão está boa — informei tolamente, sem saber o que fazer naquela situação.

— Tenho um problema a mais para você resolver — disse ela enquanto desamarrava o cinto do robe.

Virou-se de costas e caminhou lentamente para a cama, como fizera naquela tarde, na piscina; o robe caiu ao chão no segundo passo. Admirei a cintura fina e as nádegas bem conformadas, balançando numa cadência que me hipnotizava. Saí de meu estado letárgico e joguei o controle remoto no chão. Ela já estava deitada sobre o edredom fino. A cabeça descansava sobre um travesseiro de penas de ganso, olhos fixos no teto onde girava lentamente um ventilador; os joelhos estavam para o alto, as pernas dobradas e afastadas. Senti o cheiro de seu sexo tomando conta do ambiente. Arranquei minha camisa impetuosamente e alcancei a cama em dois largos passos; meus instintos tomaram controle de minha mente, das minhas emoções e de meus atos; meus lábios encontraram os seus e minha língua pôde sentir seu gosto, que já umedecia a cama.

Ela se chamava Carla e sete dias depois voltou para sua cidade no sul do Brasil; neste período fizemos sexo todas as noites — do entardecer ao crepúsculo da manhã. Eu trabalhava durante o dia na manutenção, encerrava o expediente e corria para seu quarto. Na última noite ela convidou uma amiga que conhecera na piscina naquela tarde; fizemos sexo os três juntos. Ao final daquela jornada, esgotado, apenas observei as duas na cama; não conseguia mais me excitar e minha energia estava toda drenada.

A última manhã foi melancólica: Carla viajaria em seguida e eu retornaria à minha rotina. A amiga não sinalizou qualquer possibilidade de repetir somente comigo aquela noite de prazeres; pareceu-me que seu interesse verdadeiro era relativo à Carla e que eu tinha sido apenas um inconveniente necessário.

Fiz o desjejum na cozinha do resort, sob os olhares desconfiados de meus colegas e arrastei-me o resto do dia, evitando o trabalho. Durante aqueles dias eu me alimentara e dormira mal; estava magro, fraco e abatido.

Kuius e minhas vivências durante o sono eram uma tênue lembrança escondida num canto obscuro de minha mente. O esquecimento veio e se instalou.

 



 

 

Capítulo 40

 Os residentes fixos

 

 

Nossa comunidade se expandia rapidamente e vivíamos o quarto ano em Baía Negra.

A infraestrutura estava consolidada — para o momento que vivíamos e para um razoável aumento de pessoas. O centro físico e espiritual de Goha-Iose era o grande auditório — com a frente para o norte — no qual eram feitas as palestras de orientação e condução para o grupo de pessoas. Era como um templo, mas evitávamos esta denominação para não haver qualquer comparação de nosso trabalho com as religiões e seitas estabelecidas na Terra; chamávamos de Casa da Luz. Os alojamentos — quatro até o momento — eram nominados de forma que reforçassem qualidades adequadas à Nova Terra: Harmonia, Fraternidade, Criatividade e Paz. Estes alojamentos — que foram construídos em posição radial, com suas fachadas voltadas para a Casa da Luz — tinham capacidade para acolher 430 pessoas no total, em quartos e banheiros coletivos em sua maioria. Havia a possibilidade de hospedagem individual, que era utilizada em casos especiais. Para isto foram construídas pequenas cabanas entre os alojamentos as quais chamávamos “Cubos”, pelo seu formato arquitetônico; tínhamos quinze Cubos edificados. Os coordenadores de cada alojamento, por exemplo, moravam em Cubos. Eu tinha minha própria casa, construída entre as árvores, na beira de um córrego, a leste da Casa da Luz, distante o suficiente para ter alguma privacidade. Era uma construção simples e convencional, com cozinha, banheiro, quarto e uma sala mais ampla que era utilizada como escritório e biblioteca. Também fazia pequenas reuniões ali, para até sete pessoas. Quando havia um número maior de participantes utilizávamos o próprio auditório. Atrás da Casa da Luz, mas não contíguo, estava o complexo administrativo e funcional composto de uma cozinha industrial, refeitório, lavanderia, panificadora e escritórios. Era a única edificação que não tinha um nome específico e era chamada genericamente de “Administração”.

Já havia uma clara divisão no grupo de pessoas que frequentava Goha-Iose. Tínhamos, em média, cem pessoas por dia hospedadas nos vários alojamentos; desta centena apenas 33 pessoas eram o que chamávamos de grupo de Residentes Fixos; os demais eram voluntários que permaneciam períodos e retornavam para suas cidades e sua rotina. Constituíam uma população flutuante, que aumentava em feriados prolongados e atividades da comunidade, e diminuía em outros períodos. Chegavam e saíam com a mesma facilidade, sem responsabilidades maiores; não podíamos contar com estas pessoas. Acontecia muito de um voluntário chegar para uma temporada de dois meses, irritar-se com alguma tarefa dada pelo coordenador ou com um colega de quarto que roncava demais e ir embora já na segunda semana. Tínhamos de administrar esta volatilidade de mão de obra, e para isto contávamos com os residentes.

O grupo de Residentes Fixos era o que realmente administrava Goha-Iose; todas as responsabilidades e tarefas essenciais eram destinadas a estas pessoas que eram convidadas formalmente a fazer parte do mesmo. Quando percebíamos que alguém estava se dedicando quase que totalmente à comunidade, entregando-se às tarefas solicitadas com toda sua energia, convidávamo-lo a morar em Goha-Iose. A pessoa deveria cortar todos os vínculos com o mundo externo e entregar-se incondicionalmente. Seu corpo, sua mente e seu emocional deveriam estar voltados unicamente ao propósito da comunidade. Antes de chegar a este ponto, as pessoas passavam por etapas onde ficavam duas semanas em Goha-Iose e duas semanas na sua cidade; o passo seguinte era uma rotina de três por um, ou seja, apenas uma semana em sua cidade. Aos poucos a pessoa evoluía para permanecer dois ou três meses na comunidade e voltava para passar apenas três ou quatro dias em seu local de origem. Este era o ponto em que estava Clarissa, uma brasileira de 78 anos de idade, que mostrava total devoção ao nosso objetivo. Ela estava em minha casa para uma reunião, na qual seria convidada para integrar o grupo de Residentes Fixos de Goha-Iose. Eu e Sara faríamos o convite.

— Você está nervosa, Clarissa? — falou Sara, amorosamente, segurando a mão frágil e enrugada da idosa entre as suas.

— Um pouco... — sorriu, ansiosa. — Nunca imaginei ser convocada para uma reunião com o senhor — completou voltando-se para mim.

Sorri amistosamente para que ela relaxasse e disse:

— Fique tranquila e, por favor, não me chame de senhor. Eu lhe chamo pelo seu nome, Clarissa, e você me chama pelo meu, Yeshua. Está bem assim?

— Sim, está bem... — voltou a sorrir docemente.

Clarissa morava sozinha em Campinas, no interior do estado de São Paulo; viuvara há cerca de um ano. Seu marido fora empresário no ramo de máquinas e equipamentos, e a tinha deixado numa situação confortável. Seus filhos — um casal — já tinham constituído famílias na capital, São Paulo. Os filhos e o marido nunca estiveram em Goha-Iose e, até onde sabíamos, não concordavam com o caminho escolhido pela mãe. Sara serviu chá para todos e entrei na pauta sem mais delongas.

— Queremos que venha morar conosco, Clarissa.

— Oh, meu Deus... — exclamou e as lágrimas brotaram fartas de seus olhos claros.

Ficamos em silêncio por alguns momentos; eu e Sara sorrindo, emocionados com a reação espontânea daquela irmã terrestre. Ao término de alguns minutos ela se acalmou, pediu licença para ir ao banheiro, voltou e pudemos continuar nossa reunião.

— Você compreende bem o que isto significa, Clarissa? — perguntou Sara.

— Acho que sim — respondeu ela. — Desligar-me de tudo e vir morar em definitivo, não?

— Sim, cremos que você está pronta — afirmei. — Como está o relacionamento com seus filhos?

— Quase não os vejo mais; eles não gostam muito das minhas vindas aqui e pedem sempre que eu vá morar em São Paulo, mais próxima a eles.

— E qual é sua resposta a este pedido?

— Digo-lhes que minha vida é Goha-Iose e que vou morrer aqui — respondeu com os olhos inundados novamente. — Eu não esperava este convite... Acho que não estou pronta.

— Não tenho dúvidas que está, Clarissa — reiterei. — Gostaria de perguntar algo?

— Minhas tarefas vão mudar?

— Você tem auxiliado sempre na coordenação da Casa da Criatividade; pensamos que o acolhimento dos visitantes na Recepção seria uma tarefa adequada — respondeu Sara.

— Desculpem-me; estou um pouco emocionada. Tudo é muito inesperado e maravilhoso para mim.

— Você precisa de um tempo para decidir?

— Não, não preciso. Eu aceito com todo meu coração.

Sara a abraçou, enquanto a anciã materializava suas emoções em lágrimas.

— Posso perguntar mais uma coisa? — disse, enquanto sentava novamente.

— Claro, tudo que for necessário.

— Tenho três apartamentos em Campinas; aquele que moro e outros dois alugados. Devo mantê-los?

— Não — respondi suave, mas firmemente —, não deve. Todos os vínculos materiais com o mundo externo devem ser cortados. Se você mantiver fundos e patrimônio será sempre solicitada a administrá-los. Sua energia deve estar toda voltada para a Nova Terra, a construção de Goha-Iose.

— Que devo fazer, então?

— Desfazer-se de tudo; a comunidade suprirá o necessário.

— Devo vender tudo?

— Você pode doar seu patrimônio... — sugeriu Sara.

Clarissa baixou a cabeça, pensativa. Os apegos materiais são os mais difíceis de serem quebrados. Finalmente falou:

— Eu gostaria de doar tudo que tenho para Goha-Iose, mas meus filhos não vão concordar com isto... José Mário, meu filho, dia desses insinuou que poderia pedir na Justiça a tutela de meus bens. Sou uma velha... Eles acham que estou ficando caduca — e recomeçou a chorar.

Sara e eu nos olhamos; aquilo estava se estendendo demais.

— Clarissa: vá e deixe que a noite seja sua conselheira sobre este assunto. Sara, providencie um Cubo para Clarissa ficar em paz e poder decidir com clareza. Estarei aqui para ajudá-la a qualquer momento, está bem?

Ambas balançaram a cabeça assentindo; a reunião estava terminada. Voltei para o livro que estava escrevendo em minha mesa de trabalho, que ficava ao lado da grande janela com vista para o riacho que corria preguiçosamente e cantava uma melodia suave, resultado da combinação de sons da água roçando as pedras. Olhei a mata e percebi que tínhamos mais pássaros que nos anos anteriores. O teclado do computador implorava por atenção e voltei à redação de meu sétimo livro.

Clarissa voltou na manhã seguinte. Decidira partilhar em vida a herança que caberia aos filhos pela lei brasileira; o restante seria doado à comunidade. Coube a nós um apartamento, um automóvel que pertencera ao marido e o equivalente a 94 mil dólares em dinheiro.

 

 


 

Capítulo 47

As Eras

Kuius me recebeu com um sorriso; parecia animado e foi logo falando:

— Como está se sentindo?

— Estou muito bem — respondi, alegre.

Nos dias mais recentes a minha lembrança do dia de vigília — das coisas que aconteciam no Mundo Material — estava cada vez mais acurada. Ainda era uma lembrança incompleta, mas eu notava que dia a dia estava evoluindo.

— Você terminou sua lista — comentou. — Como estão suas emoções e pensamentos?

— Vasculho mas não encontro mais medo dentro de mim, Kuius. É muito bom estar livre disto.

— Sim, é muito bom. Lembra daquelas instruções, no Mundo Imaterial, sobre o perdão?

— Sim, lembro.

— O que estava no lado oposto ao medo?

— Soberba? — respondi após rememorar alguns instantes.

— Sim, a soberba. Orgulho, prepotência, arrogância, sentimento de superioridade.

— Ahã... — exalei, desconfiado. “Onde ele está querendo chegar?” — pensei.

— Será seu próximo desafio, Christian. Sempre que se dá um passo evolutivo tendemos à soberba. Fique alerta — recomendou. — Vamos em frente! Falemos sobre a questão das Eras deste planeta; pode ser?

— Sim, vamos em frente — disse, animado com a perspectiva de novos conhecimentos.

— Uma Era é o período compreendido entre dois eventos que marcam grandes mudanças evolutivas no planeta e nos reinos que o habitam. A atual humanidade está na Quinta Era, o que significa que já se passaram quatro, obviamente. Cada Era é composta de sete épocas culturais, que são períodos definidos pela predominância de um grupo humano. Tudo bem até aqui?

— Sim, pode prosseguir — falei, enquanto minha mente fervilhava de perguntas.

— O essencial neste momento é que você compreenda as trajetórias da Quarta e da Quinta Eras.

— Em qual ponto estamos da Quinta Era? — questionei, não me contendo mais.

— No dia oito de agosto de 2008 esta humanidade ingressou na sexta época cultural, que podemos chamar de Russo-Chinesa.

— Russo-Chinesa? E como se chamaram as outras?

— Veja o esquema — e apontou para uma listagem que surgiu sobre a esfera translúcida.

 

QUINTA ERA

1ª época cultural: Hindu

2ª época cultural: Persa

3ª época cultural: Egipto-Caldaica

4ª época cultural: Greco-Latina

5ª época cultural: Anglo-Saxônica

6ª época cultural: Russo-Chinesa

7ª época cultural: Pan-Americana

 

Olhei atentamente a relação e ela parecia fazer sentido para mim; continuei perguntando:

— Como podemos saber de algo que ainda não aconteceu? A sétima, por exemplo, a Pan-Americana.

— Toda a evolução planetária já está traçada, Christian. Nosso destino também já é sabido. Muitos de nós têm a habilidade da precognição; os próprios humanos têm seus videntes e profetas, não? É óbvio que algumas coisas que falarmos aqui não estão disponíveis a todos.

— E o que acontece depois da sétima época cultural?

— Inicia a Sexta Era e o evento que a precede é o motivo primordial de estarmos aqui, o objeto de nossa tarefa.

— Que evento é este, Kuius? — perguntei, sentindo um temor repentino.

— A Guerra de Todos Contra Todos.