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Entrevista concedida à Revista Innovative, através da colunista Natália Sodré e da editora chefe Camille Labanca

 

1- Quando você começou a se interessar pelo mundo da literatura, e quando se viu escrevendo?

A literatura começou a fazer diferença em minha vida na fase adulta, quando eu passava muitos meses – às vezes anos – lendo os livros de alguns autores. Nestes períodos procurava penetrar profundamente na obra do escritor que me interessava, e depois passava por uma etapa de assimilação, onde cessava a leitura. Esta privação de livros era, muitas vezes, longa: semanas, meses. A literatura me fascina por ser uma das fontes de transmissão do conhecimento desta humanidade – talvez a mais eficiente.

Comecei a escrever após uma experiência de caminhar oitocentos quilômetros por quarenta dias ininterruptos. A vivência me projetou a escrever a história desta caminhada. Iniciei e abortei este projeto três vezes, até me dar conta de que a caminhada tinha sido importante e útil, mas apenas na minha trajetória de vida. Entendi que certas experiências dizem respeito apenas a nós mesmos, e não devem ser necessariamente expostas ao público. Também compreendi que não estava pronto para escrever alguma coisa com a qualidade necessária; meus textos eram excessivamente autorreferenciados, por exemplo.

Schopenhauer¹ ensinou, em seu sintético e rigoroso “A arte de escrever”, que existem três tipos de autores: em primeiro lugar aqueles que escrevem sem pensar, a partir de memórias, reminiscências ou mesmo de livros alheios; em segundo, os que pensam enquanto escrevem, pois pensam justamente para escrever; em terceiro lugar há os raros que pensaram antes de se pôr a escrever, que só escrevem porque pensaram.

Meus primeiros textos podem ser encaixados nos primeiro e segundo tipos. Durante muitos anos, após esta percepção, permaneci distante da criação de qualquer tipo de literatura. Apenas continuei lendo e vivendo intensamente – o que significa que eu procurava me aprofundar até o limite em cada vivência a que me propunha. Percebi, no segundo semestre de 2008, que a série ERAS estava consolidada – e me pus a escrevê-la.

 

2- Esta é sua primeira obra? Qual foi sua grande inspiração para a saga ERAS?

ERAS, livro 1 – Despertar é minha primeira obra publicada. Esta série é uma descrição de vivências e ensinamentos a que tive acesso durante minha vida. É um relato fiel da percepção que tenho da realidade que vivemos no planeta Terra. A pentalogia Canopus em Argos: Arquivos, de Doris Lessing², a Doutrina Secreta, de Helena P. Blavatsky³, normalmente publicada em seis volumes, e a série de livros sobre os evangelhos cristãos, de Rudolf Steiner4, são as obras literárias que mais influenciaram na criação da série ERAS. Todos são citados no prefácio do livro, como forma de agradecimento. Anagramas dos seus nomes – e de outras pessoas – foram utilizados para compor denominações de personagens na trilogia como forma de homenagem.

 

3- O que você aconselha para aqueles que querem se tornar escritores, mas não sabem por onde começar?

Penso que o fundamental é ler constantemente, não apenas livros, mas também o que se escreve cotidianamente em revistas e jornais. Ler atentamente para compreender o significado das palavras e expressões. Este processo é essencial para que se saiba o que já foi escrito e para que se domine o idioma. Lembrando o livro já citado de Schopenhauer, que me parece imprescindível aos candidatos a escritor, deve-se evitar a tentação de escrever antes ou durante o processo mental – a atividade criativa em si. Quando deixamos que isto aconteça estamos, na maior parte dos casos, transferindo lixo mental e emocional para o papel. É importante que deixemos nossa mente elaborar de forma coerente a história antes de passarmos para a atividade manual de materialização de palavras e frases. Quando este momento acontece – o ato de escrever – submeta o texto a outras pessoas, ouça suas ponderações com humildade e não hesite em alterar o que foi escrito. Lembre-se de que seu texto não é pétreo ou irrevogável.

 

4- Qual seu escritor(a) preferido(a), aquele que é um grande exemplo pra você?

Apontar um preferido é difícil. Admiro, leio e acompanho a obra de vários escritores, além dos já citados nesta entrevista.

Luis Fernando Verissimo5 é, provavelmente, o autor que mais li ao longo de minha vida. Sua vasta e contínua produção me fidelizou ao longo dos anos. Ele é um dos melhores dialogistas que temos no Brasil.

Paulo Coelho6 me cativou por muito tempo com suas obras místicas e autobiográficas, como Valkírias e Veronika. Admiro sua força e determinação em conquistar o mundo, e tornar-se o brasileiro mais reconhecido no planeta por mérito intelectual.

Machado de Assis7 trouxe em seus textos uma riqueza imensurável em termos do uso do idioma culto. Sua erudição e asteísmo são únicos. Penso que a obra de Machado pode ser garimpada pelos modernos escritores, assim como nossos músicos extraem acordes da obra de Villa-Lobos8. Machado de Assis é homenageado em ERAS – Despertar na formação do nome do protagonista – Christian Joaquim de Assis.

Carlos Castañeda9 descreveu o mundo fantástico do xamanismo, com personagens que se tornaram cultuados no meio esotérico e místico, como o feiticeiro nagual Dom Juan. O xamanismo não é mais útil ou necessário em nossa época, mas podem-se encontrar belas pérolas quando se mergulha no oceano de sua obra.

Osho10 sintetizou a realidade oculta de uma geração, colocando às claras pensamentos e desejos de vários povos da Terra. Sua mente ágil, com acesso direto aos processos intuitivos superiores, tornou-o um dos maiores palestrantes e debatedores dos tempos modernos.

Frederick Forsyth11 criou obras literárias envolventes e minuciosas. As várias tramas paralelas que desembocam num ápice tornam seus livros extremamente agradáveis e interessantes.

Muitos outros fariam parte desta relação, e de cada um deles certamente tenho resquícios na forma como me expresso com palavras escritas.

 

5- Você estudou o conhecimento velado das eras planetárias para escrever este livro? Ou estuda este conhecimento há muito mais tempo?

Sim, estou neste processo há bastante tempo: estudo e pesquisa. Este conhecimento – sobre as eras planetárias – vem sendo desvelado nos últimos séculos. As obras de Blavatsky e Steiner são exemplos disto: trouxeram informações importantes ao final do século 19, início do 20. Não era possível, contudo, revelar os mistérios completamente, como foi feito agora na série ERAS. As pessoas não estavam preparadas para receber tal conhecimento, e os escritores não tinham acesso a determinados detalhes agora desvelados. Steiner, por exemplo, descreveu com mestria como foram e serão todas as etapas até o final da trajetória do globo terrestre, mas não pôde detalhar com precisão as sete épocas culturais de nossa própria era planetária – a Quinta Era. O livro ERAS – Despertar mostra que vivíamos a época cultural Anglo-Saxônica, que finalizou em oito de agosto de 2008, e que estamos agora na época Russo-Chinesa, que será seguida pela Pan-Americana. Esta dificuldade em perceber com clareza o que irá acontecer no curto prazo – aqui entendido como curto prazo da trajetória humana, algo como 100 anos – é devido à dependência das escolhas que fazemos, o chamado livre-arbítrio. Durante a pesquisa intuitiva que Steiner realizou havia uma grande guerra sendo gestada, um conflito que apenas cessou em 1945. O resultado desta guerra definiu o domínio anglo-saxão e projetou as épocas seguintes. Não era algo que pudesse ser visto em 1908, quando Rudolf Steiner iniciou a produção de O Apocalipse de João12, onde descreveu a evolução humana neste planeta. A guerra foi um evento que definiu o destino seguinte da Humanidade, assim como as interações entre os corpos estelares – planetas, estrelas, galáxias etc. – definem o destino do planeta Terra.

 

6- A descrição de Christian Joaquim de Assis e Kuius foi baseada em alguém que você conhece?

Existe, sim, uma pessoa que inspirou o protagonista Christian, embora ele apresente algumas características que foram sendo agregadas ou subtraídas em função da construção do personagem na saga ERAS. Christian é um espelho das pessoas que procuram um caminho evolutivo sem cessar – os chamados buscadores. Estamos neste planeta para evoluir sempre, e devemos encontrar os caminhos para isto. Cada época cultural nos apresenta métodos e rituais diversos para esta evolução, de acordo com o ponto em que nos encontramos como grupo humano. A trajetória de Christian nos três livros mostra o caminho possível e necessário nos dias de hoje, apontando padrões de conduta e conceitos úteis que podem nos levar alguns passos adiante nesta jornada humana.

Kuius é o tutor, ou mestre, de Christian nos mundos sutis; ele ensina durante o sono de seu pupilo, quando a personalidade e a consciência se libertam do corpo. Kuius é um pleiadiano que participou e acompanhou a introdução da raça humana na Terra, mas agora ajuda apenas nos mundos não-materiais, sem usar um corpo físico. Temos muitos “Kuius” nos auxiliando neste momento de final de era planetária.

Os personagens de ERAS – Despertar são reais. Yeshua-Yupanqui, Sara, J. A. etc. que fazem parte da implantação da comunidade Goha-Iose – que também existe – são inspirados em pessoas que realmente vivem ou viveram as experiências relatadas no livro. Os nomes e as denominações foram alterados, obviamente, para não expor estas pessoas e locais. A série ERAS é, neste aspecto, codificada. Por trás de cada nomenclatura está o nome verdadeiro, codificado. Muitos não gostam de ver seu trabalho e suas reais intenções expostas claramente, de maneira que velei as denominações para proteger a obra e o autor.

As assertivas, situações, conceitos e ensinamentos são, contudo, narrados de maneira clara e verdadeira, sem véus.


7- Da onde surgiu a idéia para a capa do livro?

A capa foi elaborada pela equipe da Editora Americana, e contêm elementos da história – ela conta alguns dos mistérios revelados na obra. Esta capa foi concebida para ser vista como um painel, com as primeira e quarta capas (capa e contracapa) abertas.

Ao alto, sobre o azul escuro do espaço infinito, vemos a constelação de Carina (à esquerda) e as Plêiades (à direita); provenientes destas estrelas vislumbramos dodecaedros amarelos se aproximando de uma luminosidade que se distingue na base das capas – a atmosfera terrestre. Um dos sólidos platônicos se abre e há um homem adulto nu, em posição contraída, quase fetal; ele está em estado latente, precisa ser despertado.

Todos estes componentes podem ser reconhecidos quando da leitura do livro: a citação a Carina é uma referência e tributo à Doris Lessing e sua obra Canopus em Argos: Arquivos; as Plêiades e seus habitantes são fundamentais na trama; a “arquitetura” do Mundo Imaterial é descrita a partir de sólidos platônicos, entre eles o dodecaedro, e o homem nu mostra a introdução da vida humana neste planeta.

Quem ler o texto identificará imediatamente todos os elementos visuais das capas.

 

8- Você em algum momento achou alguma parte de seu livro parecida com alguma parte da Bíblia? Inspirou-se nela para a criação de Despertar?

A série ERAS tem em comum com a Bíblia13, mais especificamente com o Novo Testamento, o conceito de que a vinda do Cristo Jesus foi o evento mais significativo na história da Humanidade. A Bíblia, assim como outros livros ditos sagrados – Alcorão14, Torá15, Baghavad-Gita16, Vedas16 etc. – são coletâneas de textos muito antigos, que foram escritos para os povos de épocas culturais anteriores à nossa. Foram modificados ao longo dos tempos, frequentemente para servir aos interesses de grupos religiosos dominantes, e chegaram aos dias de hoje bastante corrompidos. A Bíblia foi, segundo alguns estudiosos, o livro que sofreu mais alterações ao longo dos séculos. Estes textos arcaicos são um empecilho à evolução humana, por conterem ou inspirarem dogmas que fanatizam os homens. Os fanáticos não conseguem viver o seu tempo real: eles estão sempre se referenciando e buscando respostas no passado. Rudolf Steiner percebeu isto, e dedicou grande parte de seu trabalho a reescrever os livros bíblicos, usando a Ciência Intuitiva para nos trazer o real significado da passagem do Cristo pela Terra – textos estes que serviram de inspiração e guia para a construção de ERAS.

Precisamos ter cuidado quando afirmamos que um livro contém a palavra verdadeira e inquestionável de um determinado deus; afinal, seria importante considerar o que Kuius disse a Christian: “[As escrituras sagradas] Foram todas escritas por homens. O Cristo Jesus não escreveu nada, assim como os verdadeiros mestres que aqui estiveram”, ERAS – Despertar, página 280.

 

9- Você informou no prefácio que tudo isto é real; vivenciou está história ou acredita que o que está no livro de fato anda acontecendo com a humanidade?

Sim, eu vivenciei todas as situações relatadas no livro, algumas delas como testemunha, outras participando ativamente. As descrições das eras planetárias são fiéis à realidade que vivemos, basta observar mais profundamente o momento atual. A mudança de época cultural que tivemos há pouco, por exemplo, da Anglo-Saxônica para a Russo-Chinesa, em 8/8/2008: Steiner a descreveu com cem anos de antecedência, embora sem o nível de detalhes que temos hoje. Quem conhece as eras planetárias já sabia, nos primeiros meses de 2008, que eventos importantes aconteceriam em torno desta data, circunstâncias de decadência para os povos anglo-saxões, e de ascendência para os povos “vermelhos” – o grande bloco formado pela China e Rússia. Alguns sinais foram mais evidentes, como a abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, na manhã do citado dia oito: uma prova de poder da China ao mundo. Outros sinais foram difusos: o colapso da economia capitalista comandada por Wall Street na primeira quinzena de setembro, 2008; uma derrocada tão poderosa que até hoje os Estados Unidos e os países da União Europeia estão cambaleantes. Os integrantes do chamado BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – ficaram praticamente imunes ao terremoto econômico que varreu fortunas e convicções nas nações alinhadas com a cultura anglo-saxônica. O conhecimento das eras planetárias é pragmático, e deveria ser mais estudado e aceito para que nossa evolução como humanidade não fosse tão inercial.

 

10- Quando pretende escrever o 2° livro da saga?

ERAS, livro 2 – Caminho já está escrito e encontra-se em fase de editoração pela equipe da Editora Americana. Em Caminho temos Christian sozinho, sem seu tutor, mas absolutamente conhecedor de sua origem e missão. A quase totalidade da história acontece no Mundo Material, na Ilha de Itaparica, e Christian terá de superar várias provas – digamos assim – para tornar-se consciente em todos os mundos do universo Terra, ou seja, tornar-se uma consciência unificada. Caminho mostrará que estas provas ou etapas evolutivas são mais próximas de nós do que imaginamos, e que só depende da nossa vontade superá-las.

 

 

Referências

(1) Arthur Schopenhauer, filósofo alemão (1788-1860);

(2) Doris Lessing, escritora nascida na antiga Pérsia, atualmente Irã, Nobel de Literatura 2007 (1919-);

(3) Helena Petrovna Blavatsky, teóloga nascida no antigo Império Russo, hoje Ucrânia (1831-1891);

(4) Rudolf Steiner, filósofo nascido na antiga fronteira austro-húngara, atualmente Croácia (1861-1925);

(5) Luis Fernando Verissimo, escritor brasileiro, gaúcho de Porto Alegre (1936-);

(6) Paulo Coelho, escritor brasileiro, carioca (1947-);

(7) Joaquim Maria Machado de Assis, escritor brasileiro nascido no Rio de Janeiro (1839-1908);

(8) Heitor Villa-Lobos, maestro e compositor brasileiro, nascido no Rio de Janeiro (1887-1959);

(9) Carlos Castañeda, escritor brasileiro ou peruano, nascido em Mairiporã ou Cajamarca (1935-supostamente em1998);

(10) Osho, também conhecido como Rajneesh, místico indiano (1931-1990);

(11) Frederick Forsyth, escritor inglês (1938-);

(12) “O Apocalipse de João”, de Rudolf Steiner, Ed. Antroposófica, 2003;

(13) Bíblia, livro sagrado do cristianismo, composto de Antigo e Novo Testamentos;

(14) Alcorão, ou Corão, livro sagrado do islamismo, constituído de textos do profeta Maomé;

(15) Torá, ou Pentateuco, é o texto central do judaísmo, composto pelos cinco primeiros livros do Antigo Testamento;

(16) Baghavad-Gita e Vedas, textos sagrados do hinduísmo.

 

 

Stephen Play

Florianópolis, fevereiro de 2011